Por que a obsessão com o andar?

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Por que a obsessão com o andar?

Por que a obsessão com o andar?

Pergunte a qualquer usuário de cadeira de rodas, especialmente para aqueles que tem uma vida “ativa”, e eles vão te dizer que estão muito ocupados vivendo a vida, sem tempo para pensa se eles vão voltar a andar ou morrer cadeirante.Na mídia podemos observar que o importante é fazer um cadeirante voltar a andar, nem que para isso acontecer tenhamos que usar uma parafernalha chamada de Exoesqueleto.
Mídia:

“Exoesqueleto poderá fazer cadeirante andar novamente.”

“Esqueleto vai ajudar cadeirante a ter uma vida com mais liberdade.”

” Exoesqueleto, o milagre feito pela ciência.”

Acho que não preciso falar mais nada, né!?

Você será “perdoado” por pensar assim, se você não for cadeirante ou não tem uma convivência com a gente! Quando uma pessoa sem deficiência, mas conhecidos como os “normais” dão de cara com manchetes como essas , imaginam nós cadeirantes passando o dia esperando esse “milagre” cientifico acontecer. “Voltei a andar, agora posso viver (só que não)!”

O frenesi em torno do milagre/exoesqueleto atingiu seu auge na abertura da copa com o tão esperando “chute” dado por um paraplégico. Chute realizado pelo nosso amigo Juliano Pinto, mas quase passou despercebido por falta da atenção que a Fifa/Globo deveriam ter dado para um experimento que será histórico. Falta de atenção que gerou muito mais que 7 segundos de atenção, nada melhor que um “erro” da Globo para fazer o Brasil acordar e virar um critico sábio e respeitado pelos seus amigos de facebook.

Acredite em mim quando eu digo isto: Minha cadeira de rodas é uma ferramenta muito mais capaz de me fazer andar, sendo honesto, a última coisa que eu quero é ser amarrado a uma parafernalha de fios e metal para ter uma vida mais “ativa”, ou seria uma vida amarrada?
Não quero ser um fantoche nas mãos de corporações que sonham em fazer um “não-andante” andar novamente, pois só virando fantoche para nós cadeirantes de pés no chão , conseguir chegar perto desta parafernalha.
Não sou pessimista, quanto custa sua cadeira de rodas, quanto custa a cadeira que você deveria ter?

Os jornalistas que escrevem essas matérias, involuntariamente estão invalidando uma forma única de viver de milhões de pessoas ao redor do mundo que estão muito felizes com suas cadeiras de rodas.A mensagem implícita da mídia parece ser, “cadeiras de rodas não prestam”, “cadeira de rodas é um problema”! Caminhe neste robô e seja normal!

É como se a mídia tivesse se encarregado de cumprir o “sonho” de todos os cadeirantes, sem realmente parar e fazer duas perguntas muito importantes.

Isso é realmente o seu sonho?

Isso é um sonho coletivo?

Ninguém perguntou, então vou deixar registrada a minha opinião: “Este não é o meu sonho. Eu não tenho vontade de sair na rua evolvido no meio de uma parafernalha de metal e fios. Na verdade, a minha vida como um usuário de cadeira de rodas é muito boa.”

Meu sonho?

“O meu sonho é sentir meus pés afundando na área enquanto corro em direção ao mar, meu sonho coletivo serve pra mim que ando sobre rodas e para você que andar com seu all star. Quero respeito pelo que sou, quero respeito pelo meu imposto, quero igualdade no respeito e anistia da verdade absoluta.”

Então senhora mídia,  peço que pare de batucar os tambores para o exoesqueleto. E acima de tudo, deixa a obsessão com o andar-roboticamente.

  • Paulo Oliveira

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